Amor sem fronteiras

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Família… Acho que tenho falado pouco sobre ela. É um assunto sempre delicado… Coisas boas, coisas más, sabem como é. Mas também ainda não é hoje que vou abordar o tema, hoje vou falar de uma outra família, aquela que eu chamo a família Mcdonald.

Em 2011, como já referi num dos meus textos passados, fomos para Paris no sentido de o Simão fazer um tratamento para a sua doença. Foi, desde logo, uma aventura. Para começar quase perdemos o avião, o que teria sido extraordinário. Já referi que detesto aviões? Pois, detesto aviões. Tinha duas preocupações nesse dia, a primeira, claro está, ter de subir para um avião, a segunda era saber como iria reagir o menino á viagem. Bom, devo dizer que a reação foi a melhor possível principalmente na hora da aterrissagem, enquanto eu me contorcia no meu assento, ele gritava: “Fixe! parece um carrocel!!” – “Ena… e eu preocupado! Toma lá.”

Acabado um pesadelo, começava outro, encontrar um táxi e dirigirmo-nos ao Instituto Gustave Roussy, o primeiro centro europeu na luta contra o cancro. Depois de umas voltas largas e de uma conta açucarada, lá chegamos ao dito hospital. Uma das preocupações óbvias era onde iriamos ficar hospedados, não nos tinham dado informações concretas a esse sujeito daí julgar que iriamos ficar num qualquer quarto dentro das instalações do hospital mas não, fomos encaminhados para um sujeito que nos transportou num veiculo, que mais parecia um daqueles carrinhos que se veem nos campos de golfe, através de um parque de estacionamento até uma moradia que ficava ao lado do mesmo.

Era a primeira vez que eu ouvia falar na casa Ronald Mcdonald. Uma de muitas no país, o seu propósito é o albergamento  de pais de crianças com cancro hospitalizadas neste Instituto. Foi uma surpresa…. As condições que encontramos excederam, em muito, tudo aquilo que podíamos ter imaginado. Quartos familiares com casa de banho, cozinha comum com todas as condições para cozinharmos tranquilamente as nossas refeições, espaços abertos com arvores e jardins, biblioteca, sala de relaxamento, sala de jogos, sala de convívio com tv, videojogos, pingue pongue, ginásio e até atividades como ginástica e massagens, enfim, não fosse o problema do garoto e eu diria que dificilmente conseguiria umas melhores férias… Mas a verdade é que por mais maravilhoso que possa parecer, o espírito não estava para férias…

Depois havia as pessoas. Obviamente, não estávamos sozinhos, havia por lá outras famílias, como nós, vivendo no sofrimento de ter uma criança no outro lado do parque de estacionamento. Devo dizer que foi especialmente difícil para mim, aproximar-me dessas pessoas. Em Coimbra não fiz amizades com outros pais, eu evitava-os… Já sentia dor que chegasse, não queria sentir a dor dos outros. Limitava-me a seguir o meu caminho, com o meu filho e tentava ao máximo manter-me á margem de outras situações. Moralmente terá muito que se lhe diga mas cada um cria as suas defesas, chegava-me e sobrava-me a minha própria vivência. Daí que a ideia era fazer o mesmo… evitar ao máximo as pessoas e rezar para que o tempo passasse depressa.

O que aconteceu depois transformou completamente a minha percepção daquilo que eu estava a viver. Depressa me apercebi que havia ali pessoas que já viviam aquilo há muito tempo e sabiam como lidar com casos como o meu. Logo no 2º dia fomos “obrigados” por um casal francês a comer com eles e a integração começou logo ali… Conheci pessoas fabulosas, que, tal como eu, lutavam ao lado dos seus filhos, todos com perspetivas e abordagens diferentes mas com um propósito gritado em uníssono, evidentemente, a cura dos filhos.

Quando penso naquela experiência apercebo-me que encontrei mais do que a cura do meu filho, encontrei a minha própria cura pois, sem saber, também eu padecia de doença… Por isso, dedico este texto a todas essas pessoas tremendamente corajosas que estão no meu coração e que nunca esquecerei: Leila, Patrick e Sandrine, Tino, Marinella e Lu, Cristina e Bogdan, Marjorie e Benji, Gabriella, sinto imensa falta das nossas conversas, das nossas jantaradas, dos passeios, dos consolos, do choro e do riso. Sinto falta de tudo! Amo-os a todos…

Com eles, aprendi que não importa a dor que possamos sentir, devemos sempre ser o vento nas costas e não o cuspo na cara…

Boa noite!

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