O cavalinho solitário

cavalo

Tal como muitos de vocês, uma das minhas tarefas diárias é levar o menino á escola. É uma tarefa que me agrada sobremaneira, faz-me sempre recordar os tempos de escola. Chega a ser estranho estar do outro lado da barricada…

Por isso, compreendo como é importante ser pontual na hora de ele sair. A alegria estampada no seu rosto ao ver-me ali, á sua espera, é impagável. Hoje senti algo especial quando o vi sair com a mala numa mão e a lancheira na outra. Senti que, finalmente, ele se está  a tornar num menino completamente normal e percebi, sobretudo, que está na hora de parar com alguns “cuidados” que insistíamos em ter para com ele. Este é o momento em que temos de o deixar viver, como o menino de 7 anos que é.

Só que é difícil, sabem?  Viver anos como aqueles que vivemos. Penso que tudo aquilo nos traumatizou mais a nós, pais, que a ele próprio… parece injusto, eu sei. Sabem, aquele tempo passado em hospitais só foi suportável porque, enfim, porque para ele tudo aquilo era o seu normal, ele não conhecia outra coisa. Parece cruel dito assim mas tínhamos de o fazer sentir que aquilo era apenas uma passagem, que melhores coisas viriam… não imaginam o que é dizer-se isto, por vezes, não acreditando.

Hoje, quando o ia buscar, vi um cavalinho de brincar no chão, em bom estado. Aquilo deixou-me a pensar… No meu tempo aquele brinquedo só parava no meu quarto🙂 mas a realidade é que ali estava ele, caído, á espera que alguém o acolhesse no seu lar. Não o apanhei mas na volta a casa, ali estava ele, no mesmo sítio. Disse ao Simão se o queria levar mas ele disse que não. Altruísta, o menino… pensou no dono. Isto leva-me ao tempo em que vivia em França, com a idade do Simão. Os meus brinquedos cabiam numa pequena caixa sem contar com um balde de carrinhos que mais pareciam ter passado pela guerra. Os meus pais tomavam conta de um prédio, eram “conciérges”, pelo menos a minha mãe era… Numa altura em que o dinheiro não abundava e era capitalizado para outras coisas, não sobrava muito para brinquedos, a maioria daqueles que eu tinha eram os que algumas pessoas no prédio me davam além dos que eu ia buscar ao caixote do lixo no pátio por trás do prédio. Sim, era mesmo assim e não tenho qualquer problema em dizê-lo… daí que não me escapava nada.

Não há duvida que o mundo mudou. Aqueles que dizem viver no 3ª mundo desculpem a franqueza mas deviam morder os lábios quando o fazem… Sabem lá o que é viver no terceiro mundo, façam a experiência e depois falem comigo. A realidade é que vivemos num mundo materialista e começa desde logo nestas idades… Vivemos uma época em que há muito de tudo, em excesso. A tristeza de estarmos metidos numa teia que mesmo tendo conhecimento do que se passa ao redor, não temos maneira de sair dela. Há quem diga que priva os filhos de videojogos ou que não os levam ao Mcdonalds… os meus parabéns… não sei como o fazem porque com o bombardeamento que sofremos através da tv, da publicidade que nos deixam na caixa do correio ou até das conversas entre os garotos na escola, é preciso ser-se francamente corajoso para dizer a um filho que não pode ser como os outros porque querem que seja saudável, ver diferente. Não está aqui subentendida uma critica, quem o consegue fazer merece louvores, o que digo é que eu não sou capaz. Por isso,  em relação ao meu filho, limito-me a colocar barreiras para amparar este drama social sabendo, desde logo, que é apenas um remendo que não vai estancar o rombo.

Dito isto, não sei se o cavalinho ainda se encontra perdido na rua mas sei, isso sim,  que este seria a alegria de muitas crianças por esse planeta fora!

Boa noite!

2 thoughts on “O cavalinho solitário

  1. No tempo em que tinha a idade do Simão e mais uns anitos também, todos os (poucos) brinquedos eram conhecidos de cor e os dedos chegavam para os contar. O maior e mais poderoso de todos eles era a imaginação. Agora, olhando para trás, dá para perceber que é essa necessidade de tirar o máximo partido do pouco que se tem e torná-lo algo maior do que à partida parece, que nos torna mais completos e mais do que isso, nos ajuda a pensar no mundo e a ser criativos.

  2. podes acreditar amigo, no nosso tempo, bastava 2 calhaus e uma bola de ténis para nos divertirmos… agora, é complicado… no outro dia, chego á sala e vejo o menino sentado na mesa da sala, frente ao computador. Na tv estava o supermario, eu perguntei-lhe porque é que estavam as 2 coisas ligadas e foi depois que reparei que tinha o comanda noa mão… então o que é que ele estava a fazer: como tinha dificuldade em passar um nível, ligou a internet para aceder a um vídeo e estava a jogar ao mesmo tempo á medida que o vídeo avançava… agora pergunto, quem é que lhe disse para o fazer? eu não fui…. ou ele sacou a ideia sozinho ou alguém na escola lhe disse como fazer… pessoalmente, eu apostava na 1ª… sabes, ele ainda não sabe ler e faz o que quer de um computador… estou ligeiramente preocupado para o que possa ser quando souber ler! abraço

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s