Jade

vida
Todos aqueles que, como eu, têm filhos sabem que no desenrolar da vida acabam sempre por surgir situações que preferíamos que não acontecessem. Não me considero mais que ninguém. Quando o meu filho foi diagnosticado, foi operado com urgência. Nessa altura, sim, pensei que o mundo me desabava na cabeça e que não havia ninguém em pior situação que eu. Mas essa perspectiva depressa mudou quando me apercebi da quantidade de pessoas que vivem os mesmos dramas, alguns até piores que o meu.Todos nós vivemos dramas, até que surja algo pior, julgamos sempre que aquele momento pode ser o pior da nossa vida mas muitas vezes não é…
Deixem-me contar-vos a história da pequena Jade e da sua família. O Simão fez, em Paris, um tratamento que se chama “autotransplante de medula”. O tratamento consiste basicamente em retirar fluido da medula, guardá-lo e fazer um tratamento de choque que, basicamente, passa por deitar abaixo o sistema imunitário para depois voltar a injetar-lhe o dito fluído para reiniciar o sistema, para perceberem, é como se fizessem uma formatação ao vosso computador.
 Ele foi fechado numa sala esterilizada em que só podíamos entrar, vestidos dos pés á cabeça, com material hospitalar esterilizado (bata, sapatos, máscara, touca, luvas). O mais difícil era não podermos tocar no menino, não poder sentir a sua pele, não poder acaricia-lo nem beija-lo… foi muito difícil… vivi muito mal essa situação mas tal como até ali, foi ele quem nos deu o exemplo…  Dizem-me muitas vezes que fomos corajosos no lidar da situação, acreditem, não foi sempre assim. Não tenho problemas em dizer que chorei, muitas vezes sozinho.  Muitas vezes senti vontade de gritar. Mas, aí, a coragem do menino foi um exemplo e foi ele que me segurou. Devia ser ao contrário.
Quando chegámos ao Hospital, o Simão foi colocado num quarto transitório á espera que se pudesse iniciar o tratamento. Foi aí que conhecemos a pequena Jade e os seus pais, Cristophe e Elizabeth. A Elizabeth era de origens portuguesas daí que depressa fizemos amizade… A Jade tinha um tumor ósseo localizado num joelho e na altura pensei que não era assim tão mau, podia cortar uma perna e viveria, simples… já o Simão não podia cortar a cabeça. Puro egoísmo, eu sei.
Ao longo da nossa estadia confraternizamos bastante, acompanhei o caso da menina e afeiçoei-me a ela. Mas nunca dei tanta importância ao seu caso pois estava convencido que ela ia ultrapassar o problema mais facilmente que o meu filho. Claro que nunca disse isto aos seus pais, evidentemente, sempre demonstrei o maior respeito pela aflição deles… quem era eu para desvalorizar um problema destes. Mas os pensamentos, esses, não os controlava propriamente…
A Jade faleceu 3 semanas antes de regressarmos a Portugal. Foi um choque enorme quando encontrei a Elizabeth no hospital e me disse que já não havia nada a fazer. Não podia acreditar. Não consigo descrever o que pensei de mim nessa altura… dirigi-me ao quarto onde ela estava instalada, ela mal abria os olhos devido aos sedativos e caí num pranto quando a Elizabeth me disse que era assim que ia viver os seus últimos dias. Iam levá-la para casa mas não mais a poderiam ver brincar… imaginei-me na situação deles e é uma dor indescritível. Mesmo agora, tenho dificuldade em fazer este relato. O que me surpreendeu foram as palavras da Elizabeth ao dizer-me que era um alívio. Mas não fiquem chocados. Não fiquei chocado porque pensei no mesmo, só nunca o tinha ouvido de outra pessoaO alívio é apenas por poderem voltar para casa e viverem os últimos dias da filha na tranquilidade do seu lar. Sem hospitais, sem médicos, sem invasões contínuas ao corpo…. só eles.
Depois disso troquei um par de e-mails com eles até ao dia em que recebi a fatídica notícia do falecimento. Nesse mesmo e-mail, fez-me entender que se iam afastar de tudo aquilo. De nós, inclusive. Não posso fazer julgamentos pois não sei o que faria no lugar deles… Espero nunca vir a saber.
A preocupação que sentimos pelos nossos filhos naturalmente sobrepõe-se aos problemas dos outros mas não devemos deixar que isso nos tolde o pensamento, não somos os únicos a viver dramas da vida.
Boa noite!