Fantasmas da vida

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As reações das pessoas aos meus textos têm sido, no mínimo, curiosas… algumas identificam-se com o que escrevo, revêem-se nas situações que vou descrevendo nos seus próprios moldes, adaptando-as á sua própria vida. Outras têm dificuldades em ler pela dor que os textos transmitem, outras ainda olham para o que escrevo como um mundo novo, algo que só viam na televisão… com o devido afastamento.
Outros terão, apenas e só, curiosidade… Já me disseram “admirar” a coragem de expor desta forma a minha vida, elas próprias sentindo-se incapazes de tal atrevimento. Haverá quem me considere um louco por o fazer. Talvez pensem as duas coisas, ao fim e ao cabo, como se distingue a coragem da loucura? Convenhamos, é uma linha muito ténue… a fronteira entre a aceitação e o bizarro. Creio não estar louco. Ainda…
Escrevo porque gosto de escrever, certo, mas escrevo o que escrevo com duas ideias bem assentes na minha cabeça. A primeira passa por expiar os meus fantasmas, por cobro a tormentos que me perseguem. A outra passa por fazer refletir quem me acompanha nesta aventura… Não procuro piedade, não procuro infligir dor, não procuro ajustes de contas. Procuro a minha libertação, tão só isso. Podia escrever um diário, claro, guardar estas memórias para mim ou para que um dia o meu filho pudesse “descobrir” quem realmente era o seu pai. Mas isto não se trata, apenas, do meu filho.
Noutros tempos, o que estou hoje a fazer seria impensável mas tal como refere a personagem de Meryl Streep em “as pontes de Madison county”, com o tempo perdem-se os medos. É bem verdade… Eu perdi o medo de me revelar, não procuro escrever de modo a que as pessoas me olhem como um ser humano extraordinário nem procuro o perdão de ninguém. A haver perdão, terá de ser dado por algo superior a mim ou a qualquer um. De quem eu queria o perdão era, por exemplo, do meu amigo Rui, que já não se encontra entre nós. Alguém que teve uma doença parecida com a do meu filho e que nunca fui visitar ao hospital do Fundão. Aqui, perto de onde eu vivo… Irei viver o resto da minha vida com o fantasma de não ter acompanhado nem apoiado alguém que precisava que lhe fosse dada a mão. Acham que ao escrever estes textos mereço louvores de coragem? nã… Coragem teria sido estar ao lado do meu amigo.
Diz-se que Deus escreve direito por linhas tortas. Não quis viver então o estigma do cancro mas tive de o vivenciar da forma mais dolorosa possível, na pessoa do meu filho.
Por isso, vos digo, o pensamento refletido num texto equivale ao olhar refletido numa foto, tudo depende da forma como sentimos o mundo, nesse preciso momento.
Boa noite!