As Palavras que nunca te diria

amizade 2
Hoje alguém me pediu desculpa por não ter acompanhado o meu caso, foi um gesto que achei bonito… Mas esse alguém não tinha que o fazer pois não tinha obrigação de saber. Quando o meu filho foi diagnosticado, eu pedi silêncio, não queria que as pessoas tivessem conhecimento da situação. Não todas. Informei quem considerei de mais confiança para não criar um falatório que tanta gente aprecia. Era do meu filho que se tratava. Não é uma pessoa qualquer… Sempre fui vítima de muito falatório, sei bem o quão doloroso pode ser. Não queria isso para ele por isso abafei o quanto pude a notícia… E devo dizer que foi a melhor coisa que fiz, não imaginam a pressão que senti sempre que alguém me ligava a pedir notícias, cheguei a não atender o telefone. Já me bastava ter a família sempre a exigir saber as coisas como se eu tivesse respostas para dar… “o que é que o médico diz?” ou “eles não dizem nada?” eram as questões mais frequentes. O que dizer quando tudo o que se faz é com prognóstico reservado? Mas exigiam-se respostas que eu não tinha.O pior foi a fase dos conselhos, ouvimos de tudo, chegámos a sentir que nos culpavam pelo que estava a acontecer. Toda a gente tinha soluções, remédios, livros até a fé de Deus. Mas nós é que vivemos aquilo… o primeiro dia que dormi no hospital, em Coimbra, passei a noite a ouvir os gritos de um menino, cheio de dores. Implorava para que o deixassem, a mãe chorava, as enfermeiras faziam o que podiam para o acalmar mas ele pedia para morrer. Era o meu primeiro dia… depois foram 3 operações ao cérebro, em cada uma delas senti que a alma me era arrancada. Queria fugir, desaparecer dali, morrer, tudo me parecia melhor que estar ali, na sala de espera, a aguardar por notícias. Chorava antes da intervenção e chorava depois, de alívio e de angústia. Nunca me esqueço, na última operação, tiveram de dar-lhe um xarope para o sedar pois ele estava extremamente nervoso, levei-o ao colo até ao bloco operatório, falei com ele mas parecia embriagado, não era ele próprio. Antes de o entregar ás mãos dos enfermeiros, beijei-o, disse-lhe que tudo ia correr bem, ele respondeu: “papá, não chora… eu fico bem!”. Tiveram de me o arrancar das mãos porque eu não o conseguia largar. Ninguém imagina o que passamos. Mas ás vezes parecia que sabiam…
Foi complicado. Nunca exigi nada de ninguém mas muitas vezes senti que me era exigido. Vivi grandes momentos de tensão mas creio que os piores foram os que vivi derivados da família… É curioso pois desde o início que a médica do menino nos avisou para nos distanciarmos dos conselhos familiares. Na altura achei esquisito mas depressa ficou óbvio que era uma mulher vivida… Não me entendam mal, a família ajudou-nos muito, de muitas maneiras mas neste aspeto, não.
Daí que digo, a todos aqueles que se sintam como esta amiga, não precisam, foi melhor assim. Mas já agora quero apontar algo. Uma das coisas que mais me incomodou era quando encontrava aqui ou ali pessoas que vivem no entourage da minha família dizerem-me, cheios de pena aparente, que não sabiam de nada… deixem-me dizer-vos que num ambiente como aquele onde os meus pais vivem, isso é simplesmente impossível. Mas se as pessoas queriam dizer isso, enfim, tive de aceitar. Cada um lida com as coisas como quer mas não ganharam pontos, digo-vos eu. A honestidade é uma virtude que aprecio enormemente daí que apreciei o cuidado dessa pessoa e lhe deixo o meu muito obrigado.
Para finalizar, digo-vos o seguinte: como há mar e mar, também há amigos e amigos, há aqueles que vão e aqueles que voltam. Os que voltam são os que me interessam…
Boa noite!