Plantar uma semente e esperar que chova

star wars 2
Já devem ter percebido que gosto de cinema. O termo até é simpático, para dizer a verdade… Este fascínio começou numas férias que passei em Lisboa em casa de um familiar de quem, aliás, já falei num texto anterior. Custa-me continuar a falar nele mas aquilo que sou hoje está diretamente ligado áquilo que ele representou para mim… Ele foi uma grande influência, apesar de nunca lho ter dito…. Mas acredito que ele sabia. Sei que sabia…
Nunca me irei esquecer de quando me levou ao cinema pela 1ª vez… estávamos nós em casa dele, acabadinhos de jantar quando me pergunta o que quero fazer no dia seguinte. Eu respondo que não sei, sabia lá o que se fazia em Lisboa! Tinha 12 ou 13 anos, vinha de uma terreola onde não havia nada, iria onde ele me levasse, pois claro… Ele pega num jornal e diz-me para escolher um filme, que íamos ao cinema. Cinema?!! Que raio… não dei parte fraca, pus-me a olhar para os títulos e apontei, ao calha, para o Star Wars – o regresso do Jedi. “Boa escolha!” disse-me ele. Ok….
Foi o melhor dia da minha vida. Depois disso, sempre que me perguntava o que queria fazer, a resposta estava sempre pronta. Mas fez-me descobrir outas coisas como o planetário, Cascais, o mar e até descobri que gostava de música no seu velho gira-discos. São tempos de nostalgia, de muita descoberta… Um destes dias levarei o meu menino á sua primeira sessão cinéfila e acho que estarei mais nervoso que ele.
Mas aquilo que me fascinava eram os montes de livros que ele mantinha amontoados aqui e ali na sua sala. Eu perguntava-me como é que alguém podia ler tanto, já para não falar de revistas e jornais. Foi ele que me incitou a ler, começou por me comprar livros de “uma aventura”, o primeiro foi uma aventura em Évoramonte e estava lançado… sempre que ia a Lisboa ou que ele vinha á aldeia, lá vinham os livrinhos. Um dia, trocou-me as voltas… esperava eu mais um volume para juntar á coleção quando ele me apresenta um pequeno livro (mas volumoso) e me diz: “Está na altura de começares a ler outra coisa, lê isto e depois diz-me o que achaste.” Folheei o livro e nem uma imagem… pensei: “Estou feito! Nunca mais acabo de ler isto!” Mas não foi assim, acabei… e adorei.
O livro era a Odisseia de Homero. Gostei tanto que logo de seguida comprei a Ilíada do mesmo autor. Creio que tinha 16 anos…
Quando numa aula, o meu professor de Português pergunta á turma, de livro na mão e com ar sarcástico, quem é que já tinha lido a obra, eu fui o único a levantar a mão. Mesmo assim quis testar-me, achou que era um dos espertinhos da turma.
Nesse ano, o meu tio era professor na minha escola e, segundo consta, esse professor estava no bar a mencionar o episódio com alguns colegas até que o meu tio lhe perguntou como se chamava o aluno. Ele disse o meu nome e ele terá dito: “é normal, é meu sobrinho!”
Eu soube disto há poucos anos atrás… Num dia em que encontrei esse meu professor na rua, contou-me essa história para me dizer  que ele gostava de mim, que nesse dia tinha tido orgulho no sobrinho.
Então, como no momento em que escrevo isto, as lágrimas correram… Mas como disse a sua filha Andreia, num comentário muito bonito que fez ao texto que lhe dediquei, as pessoas podem não estar no mesmo plano que nós mas continuam a viver nas nossas recordações….
Boa noite!