Não há tempo para iluminar o céu

DSCF3327
Paris. “La ville-lumíére”, a cidade luz…
Sabem porque se chama assim? porque é uma cidade iluminada, todos os monumentos parisienses são iluminados, o próprio sena é iluminado com os seus famosos bateaux-mouches, enfim, de noite tudo é luz e cor. Resposta simples… mas errada.
Paris foi( e não deixou de ser) um centro de artes, atraiu os maiores nomes da pintura, da música, da escrita,… por aí fora… Paris é assim chamada por ter atraído dezenas de “mentes iluminadas”! li algures que em Paris não se punha um poste para segurar uma lâmpada, fazia-se uma obra de arte com uma lâmpada dentro.
Nasci e vivi em Paris até aos meus 7 anos. Depois fui indo lá de forma esporádica, normalmente nas minhas férias porque os meus pais tinham a sua vida estabelecida nesta cidade. Eu próprio fui trabalhar para lá durante cerca de um ano e durante esse ano fiz uma grande amizade. Uma? sim, já falei sobre amizade por isso creio que não valha a pena repetir-me. Conheci várias pessoas mas que valesse a pena, uma. Chamava-se Franck. Conheci-o quando ingressei num ginásio e descobri a arte chamada Tai Chi Chuan. Começou por brincadeira mas acabou por tornar-se um estilo de vida… e o Franck era o instrutor. Vivia em Paris há vários anos, ganhava a vida a dar aulas de Tai Chi, o que era difícil tendo em conta a cidade em que estávamos… ele tinha dificuldades, eu sabia, apesar de não o admitir abertamente mas dizia-me que era assim que queria viver, sem compromissos de maior, de modo a poder circular livremente…. quando sentisse que já não queria estar ali, pegaria nas suas coisas e fazer-se-ia  ao caminho. Eu admirava o seu espírito livre, queria ser como ele… daí que foi fácil fazermos amizade,  era uma mente aberta, olhava para o mundo como se fosse uma tela colorida, otimista por natureza, nada parecia capaz de o deitar abaixo… o dinheiro era um mal necessário mas recusava-se a ser refém do mesmo… não abdicava de fazer aquilo que lhe dava prazer e partilhou tudo isso comigo. Foi ele que me me abriu os olhos para a verdadeira Cidade de Paris , aquela que os guias turísticos não nos fazem ver. Apresentou-me o bairro Saint-Michel com a sua comida de rua, fez-me descobrir as maravilhosas crepes salgadas, um dos seus pratos favoritos. Os bares com os seus concertos ao vivo ou o teatro de rua. Levou-me a sítios divinais como o Jardim do Luxemburgo, ao Louvre ou ao bairro boémio de montmartre,  já para não falar dos deliciosos mercados de rua que fazem os nossos sentidos dispararem em todas as direcções, até me fez passear num bateaux – mouche, digo “fez” porque resisti á ideia, achava que era um cliché. Puro engano,  noite fora é algo surrealista. Poderia continuar por aqui fora mas acabaria sempre por me esquecer de alguma coisa. Foram momentos não menos que mágicos… E depois, veio a minha querida mana… mas isso também fica para outra ocasião.
E depois disto… voltei para Portugal, perdi o contacto com ele e pensei que nunca mais o ia voltar a ver.  Não dá para simplificar mais que isto. porquê? não sei… ele prometeu vir a Portugal mas deixou de responder ás minhas cartas, presumi que tinha seguido o seu caminho, livremente, como ele falava. Acabei por voltar á cidade luz, não pelos melhores motivos, fiz o possível para tentar perceber o que lhe tinha acontecido mas não o encontrei, o Ginásio tinha encerrado, procurei no apartamento que ele alugava mas ninguém sabia de nada e desisti… Estive cerca de 5 meses em Paris e eis que, a dois dias de regressar a Portugal, saio do metro despreocupadamente e ei-lo ali á minha frente. Olhámos um para o outro de forma estranha, eu mais gordo, ele com muito cabelo branco e ali estávamos nós, cerca de 12 anos depois a tentarmo-nos reconhecer mutuamente… um belo final feliz, certo?
Pois… nem por isso… falámos um pouco mas ele estava com pressa pois ia trabalhar, dei-lhe o meu endereço de e-mail e, estupidamente, não lhe pedi o seu. Até hoje, nada… não sei porquê, não sei mesmo porquê… vivi estes anos angustiado, com imensas saudades, fiz o que pude para o reencontrar e quando o destino pareceu querer que as coisas acontecessem, ele diz que não… mas não estou triste. Estive triste muitos anos mas agora sei que ele está bem.  As suas razões, desconheço, talvez tenha passado demasiado tempo, não sei…  Apenas sei que terá os seus motivos e as relações são assim mesmo, somos livres de querermos, ou não, socializar com alguém….
Talvez um dia ele o faça. Nessa altura, aqui estarei, á espera do meu grande amigo Franck!
Boa noite!